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Nos 120 anos de
seu nascimento, biografias reconstituem algumas das
"histórias reais" da poetisa goiana
Alguns dos mitos e mistérios a
respeito da personalidade por trás do pseudônimo da poetisa
goiana Cora Coralina (1889–1985) não foram totalmente
esclarecidos. Mas parte deles ganham novas visões na ocasião
de seus 120 anos de nascimento, completados hoje e
comemorados no festival Cora Viva Coralina, aberto ontem na
Cidade de Goiás, sua terra natal localizada a 320 km de
Brasília.
As biografias existentes sobre a mulher que se tornou uma
das principais personagens da história do Estado de Goiás
parecem não dar conta do retrato fiel de Ana Lins dos
Guimarães Peixoto Bretas, nome de batismo de Cora. No
entanto, uma série de lançamentos literários buscam lançar
luz sobre vida e obra de Coralina e deixar esse panorama
menos obscuro – já que, até em seu estado de origem, boa
parte do público não conhecia toda sua história.
Um deles é Cora Coralina: Raízes de Aninha (Ideias &
Letras), fotobiografia lançada no Museu Casa de Cora
Coralina, que passa atualmente por reforma e atualização
literária. Por meio de documentos e fatos reais, os autores
Clovis Britto e Rita Elisa Seda procuraram reconstituir a
vida da menina, moça, dona de casa, mãe, sertaneja,
cozinheira, literata e doceira (atributo que ela dizia
valorizar mais que o de poetisa). "Na verdade, a sua
biografia está sendo escrita agora", diz a presidente da
Associação Casa de Cora Coralina, Marlene Vellasco.
Em versos como "Eu sou a terra milenária, eu venho de
milênios / Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada /
E fecundada no ventre escuro da terra", do poema A Gleba Me
Transfigura, constata-se o teor autobiográfico da criação
coralineana. Ao estudar a fundo com Rita Elisa o vasto
material, Britto conta que descobriu mais sobre a
personalidade da artista pelas "meias confissões" de
Coralina ao longo de sua obra, a partir das quais revelaram
"as outras metades".
"Ela morou a maior parte do tempo aqui, na antiga Vila Boa
de Goiás. E em cada cidade que morou, deixou marcas e ações
de muitas dessas outras Coras, como a ambientalista, a
política (que subiu em palanque para discursar) e a social
(que fundou instituição filantrópica)", argumenta. Entre os
volumes existentes, que buscam reconstituir o
passado de Coralina, Britto cita Cora Coragem Cora Poesia,
escrita pela filha Vicência Bretãs Tahan (que lança, em
breve, um livro-tributo com receitas), com uma biografia
romenceada – "sem determinada preocupação documental e que
não pretende ser a verdade", segundo Britto.
Fascinante e mitológica
Paulo Sales, um dos netos que mais conviveu com Coralina,
conta que conheceu a avó quando menino, nas visitas que ela
fazia a São Paulo para ver a família. Entre as principais
lembranças da infância estão as conversas nas quais trocavam
ideias, inclusive sobre poesia. "A Cora que vai sair dessa
biografia – cujo trabalho de pesquisa profundo se utiliza de
documentos que estavam adormecidos – é muito mais rica e
fascinante do que imaginávamos. Não se trata daquela
velhinha que começou a publicar depois da terceira idade.
Aos 17 anos, por exemplo, ela publicava e, alguns anos mais
velha, era considerada uma das maiores escritoras goianas",
comenta.
O segundo lançamento memorial a Cora, Moinho do Tempo –
Estudo Sobre a Obra de Cora Coralina, dos organizadores
Clovis Britto, Maria Eugênia Curado e Marlene Vellasco, é um
trabalho sobre a vida e a trajetória da poetisa, descendente
de bandeirantes. "Ao resgatar outras Coras, a publicação
busca suprir uma lacuna existente entre a poetisa e a
doceira, ao seguir um novo viés, que traz a interpretação da
Cora mitológica", afirma Britto.
Quem foi Cora Coralina?
Uma mulher muito à
frente de seu tempo. Sua trajetória contempla a história de
Goiás e do País em torno das mulheres brasileiras, tanto das
interioranas como as das capitais. Cora sintetiza coragem.
Sua obra não é previsível. Pode-se pensar que vai encontrar
queixumes de uma senhora, mas sua obra é forte, crítica,
irônica" – Clovis Britto,
organizador bibliográfico
"Uma pessoa de todas as épocas e lugares, cuja
mensagem não tem data marcada. Ela fala do passado, do
presente e do futuro. Ultrapassa limites de espaço e tempo"
– Paulo Salles, neto.
Marlon Maciel
Colaborador

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